Com início em 1º de setembro, o Programa de Extensão em Saúde dos Povos Indígenas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) tem desenvolvido uma atividade curricular de integração de ensino, pesquisa e extensão (ACIEPE), focada na saúde indígena. A ACIEPE terá seu encerramento em 1º de dezembro de 2021.

Espaço Compartilhado para Discussões Compartilhadas

O objetivo desta ACIEPE é estabelecer um espaço compartilhado entre indígenas e não indígenas, estudantes e profissionais de saúde, discutindo as especificidades da saúde indígena. 

A atividade complementar sobre introdução à saúde dos povos indígenas foi ofertada também como curso de extensão para as pessoas externas à UFSCar. Para as 48 vagas disponíveis, houve uma concorrência de cerca de 260 interessados, que foram selecionados por meio de carta de intenção dos candidatos. 

O grupo de participantes expressa grande diversidade, formado por indígenas e não indígenas, estudantes da área da saúde e profissionais de saúde que atuam na saúde indígena e lideranças. São mais de 15 estados federativos representados, com cerca de 20 diferentes povos originários.

Da invisibilidade ao protagonismo indígena

Existe uma invisibilidade das populações indígenas nos currículos de graduação e pós-graduação em saúde, além de fragilidade nas discussões relacionadas à competência cultural para lidar com situações de diálogo intercultural, resultando em desconhecimento, tanto dos estudantes, como dos profissionais de saúde, sobre as questões relacionadas à saúde dos povos originários, dificultando o engajamento nessa área de atuação. Assim, como estratégia, buscou-se favorecer o protagonismo indígena, construindo novos conhecimentos por meio de encontros interculturais.

Como construir de forma compartilhada?

A metodologia utilizada partiu da experiência do grupo coordenador com o desenvolvimento das Rodas de Conversa sobre Saúde dos Povos Indígenas, projeto de extensão desenvolvido desde 2016. Os encontros são baseados nos círculos de cultura de Paulo Freire, promovendo uma relação horizontal entre educadores e educandos, em contraposição a uma visão elitista da educação, valorizando a tradição oral e legitimando a diversidade cultural e de saberes. 

Tal concepção se dá com base em três princípios metodológicos: o respeito, a autonomia e a dialogicidade. Foram utilizadas estratégias e instrumentos de diversas metodologias ativas de ensino-aprendizagem, com inspirações na problematização, na espiral construtivista e na aprendizagem baseada em problemas. 

Identidade, visibilidade, coletividade, cultura e cuidado

A ACIEPE tem duração total de 60h, realizada totalmente no formato on-line, com encontros síncronos e atividades assíncronas. Dividido em  4 módulos: Identidade Indígena; Cuidado em Saúde Indígena; Direitos Indígenas e Saúde; Educação e Saúde Indígena. 

A logomarca da ACIEPE foi construída de forma compartilhada e estampa suas intenções: o urucum traz a identidade e a visibilidade indígena; o balaio, que representa a coletividade e a cultura; e, sustentando os itens do centro, mãos que representam o cuidado. A organização gráfica foi da designer Giulia Bettini Calistro.

Quem faz a ACIEPE Saúde dos Povos Indígenas?

A ACIEPE é uma construção em parceria com o Pet Indígena Ações em Saúde UFSCar, o Grupo de Pesquisa Educação Popular em Saúde UFSCar (GPEPS), a Diretoria da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), o Grupo de Trabalho em Saúde Indígena da SBMFC e o Centro de Cultura Indígena UFSCar (CCI). O seu desenvolvimento tem apoio da Proex UFSCar. 

Ao todo, são 21 pessoas envolvidas nessa construção e na coordenação da ACIEPE, sendo 10 delas, indígenas. A coordenação é dos professores Cecília Malvezzi e Willian Fernandes Luna, do Departamento de Medicina da UFSCar. A equipe organizadora é composta por: Bruno Marques, Larissa Campagna e Ana Paula Wassu Cocal (Programa de Extensão em Saúde dos Povos Indígenas); Aline Nordi e Natália Stofel (GPEPS); Luiz Otávio Bastos, Sarah Segalla, Daniel Teles Arapasso, Alexsandro Mackenzie Guarani (SBMFC/GT Saúde Indígena); Dênis Delgado Baré, Raniel Martinha Ticuna, Santiê Atikum-Umã, Vandicley Bezerra Atikum-Umã, Claudiana Baré (PET Indígena Ações em Saúde); Francisca Kokama (CCI); Ana Elisa Ribeiro (UNIFRAN). Além disso, Letícia Gomes Fonseca é responsável pelo apoio geral à ACIEPE, atuando como estudante bolsista, e temos Arikutua Waurá e Ana Paula Alves de Souza, que estão como apoiadores na construção das publicações de Comunicação Social.

Vêm por aí publicações dos participantes!

Uma das atividades propostas aos participantes da ACIEPE é a produção de publicações de comunicação social sobre saúde indígena, para a divulgação de temáticas relacionadas ao que tem sido discutido nas rodas de conversa do curso. Assim, essas publicações serão realizadas por meio do InformaSUS UFSCar – Saúde Indígena, ao longo das próximas semanas.

Confira as publicações de comunicação do social do grupo!

Contato e dúvidas: saudeindigena@ufscar.br 

Autoria do texto:

Arikutua Waurá

Ana Paula Alves de Souza

Cecília Malvezzi

Willian Fernandes Luna

Referências:

Brasil. Ministério da Saúde. Relatório IV Conferência Nacional Proteção Saúde Índio. Brasília: Funasa, Ministério da Saúde; 2007. 

Brasil. Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas. 2a ed. Brasília: Funasa, Ministério da Saúde; 2002. 

Baruzzi RG. A universidade na atenção à saúde dos povos indígenas: a experiência do Projeto Xingu da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina. Saúde Soc. 2007:16(2):182-6. 

Batista JBS, Gomes Júnior CM. A história dos povos indígenas nos livros didáticos de acordo com PNLD 2011 e 2014. Rev Cad Estud e Pesqui na Educ Básica 2016;2(1):109-23. 

Callegari FVR, Santos Neto CS, Carbol M. A educação tutorial no Grupo PET-Indígena Ações em Saúde da UFSCar. Missão, processo de ensino aprendizagem e práticas formativas. In: Freitas AEC. Intelectuais indígenas e a construção da universidade pluriétnica no Brasil: povos indígenas e os novos contornos do Programa de Educação Tutorial/Conexões de saberes. Rio de Janeiro: e-papers; 2015: 181-13.

Collet C, Paladino M, Russo K. Quebrando preconceitos: subsídios para o ensino das culturas e histórias dos povos indígenas. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria ; 2014.

Cyrino EG, Toralles-Pereira ML. Trabalhando com estratégias de ensino-aprendizado por descoberta na área da saúde: a problematização e a aprendizagem baseada em problemas. Cad. saúde pública 2004;20(3):780-8. 

Diehl EE, Pellegrini MA. Saúde e povos indígenas no Brasil: o desafio da formação e educação permanente de trabalhadores para atuação em contextos interculturais. Cad. saúde pública 2014;30(4):867-74. 

Freire P. Educação como prática da liberdade. 23a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1999.

Garnelo L. Política de Saúde Indígena no Brasil: notas sobre as tendências atuais do processo de implantação do subsistema de atenção à saúde. In: Garnelo L, Pontes NA, org. Saúde Indígena: uma introdução ao tema. Brasília: MEC-SECADI; 2012. p.18-58. 

Lima VV. Espiral construtivista: uma metodologia ativa de ensino-aprendizagem. Interface (Botucatu) 2017;21(61):421-34.

Luna, Willian Fernandes et al . Identidade, Cuidado e Direitos: a Experiência das Rodas de Conversa sobre a Saúde dos Povos Indígenas. Rev. bras. educ. med., Brasília , v. 44, n. 2,  e067, 2020.

Universidade Federal de São Carlos. Política de ações afirmativas, diversidade e equidade da Universidade Federal de São Carlos. São Carlos: UFSCar; 2016.

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